'O que a gente vai dizer pra nossa filha?': Família teme que corpo de gaúcho morto na Ucrânia nunca seja encontrado
31/08/2026
(Foto: Reprodução) Família teme que corpo de gaúcho morto na Ucrânia nunca seja encontrado
A família de Tiago Rodrigues Marques, 41 anos, teme que o corpo do gaúcho, dado como morto na guerra da Ucrânia, nunca seja encontrado. Morador de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, ele era um dos brasileiros recrutados pelo Exército ucraniano para combater contra a Rússia.
Segundo a esposa, Marili de Fátima Rodrigues, colegas de Tiago disseram que ele morreu depois que um míssil atingiu o bunker onde estava.
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A última mensagem de Tiago foi enviada para a família na madrugada de 24 de agosto. Por volta das 4h24, ele ligou para Marili e disse que estava sendo atacado e que precisava procurar um lugar seguro.
Antes de sair, Tiago também enviou uma mensagem para a filha:
"O pai tá saindo do serviço agora e tá indo pra outro lugar mais tranquilo e assim que o pai chegar lá te liga, tá? Beijo."
A ligação prometida nunca aconteceu.
A maior preocupação da esposa é com a filha do casal, que pode não ter a oportunidade de se despedir do pai.
"E o que a gente vai dizer pra uma filha de um pai que a gente não tem como dizer pra ela nem que ela tem como se despedir. Não vai."
Após a ligação que nunc aA família passou dois dias sem notícias. Em 26 de agosto, colegas de Tiago, que estavam no mesmo batalhão, entraram em contato.
Segundo Marili, eles informaram que o bunker onde Tiago estava havia sido atingido por um míssil e que ele estava morto. Os colegas também orientaram a família a procurar a embaixada, porque Tiago poderia ser oficialmente considerado desaparecido. Disseram ainda que não há interesse nas autoridades ucranianas de localizar e devolver os corpos dos mortos.
Tiago Rodrigues Marques, gaúcho morto por ataque a drone na Ucrânia
Arquivo pessoal
Itamaraty ainda não recebeu confirmação
A família procurou o Ministério das Relações Exteriores em busca de ajuda para confirmar oficialmente a morte e tentar recuperar o corpo.
Nesta segunda-feira (31), a Embaixada do Brasil informou à esposa que ainda não recebeu uma notificação oficial do governo ucraniano.
Em mensagem enviada à família, a Embaixada afirmou que não tem acesso direto às unidades militares ucranianas e sugeriu que Marili entrasse em contato com a unidade militar onde o marido serviu.
O Itamaraty também ressaltou que se trata de uma zona de conflito, "o que impede qualquer atividade por parte das autoridades locais".
Segundo a mensagem, a Embaixada fornecerá comentários relevantes depois de receber a notificação formal das autoridades ucranianas.
Em manifestação anterior para o g1, o Ministério das Relações Exteriores havia informado que "a prestação de assistência consular em situações que envolvem forças armadas de terceiros países apresenta dificuldades inerentes às obrigações contraídas no ato de alistamento e ao terreno de operações".
O Itamaraty também informou ter recomendado, em dois atos consulares, "a recusa a ofertas de trabalho e de participação em exércitos estrangeiros".
Tiago já havia lutado na Ucrânia
Esta não era a primeira vez que Tiago foi para a Ucrânia.
Em 2024, ele passou 11 meses no país. Retornou ao Brasil em 2025, depois de ser atingido por uma bomba e ficar com surdez parcial em um dos ouvidos.
De volta ao Brasil, segundo a esposa, Tiago não conseguiu um emprego com uma remuneração parecida com a que recebia na Ucrânia. Em março deste ano, decidiu retornar ao país.
Desta vez, embarcou no Aeroporto Internacional Salgado Filho sem avisar a família.
Segundo Marili, Tiago voltou para tentar conseguir o dinheiro necessário para o tratamento da filha. A menina tem autismo e, de acordo com a mãe, precisa de tratamento especializado.
"Quando ele decidiu ir pra lá, ele foi pensando muito nisso, que ele ia poder dar uma condição de a gente fazer um tratamento melhor, porque tudo particular, a gente não consegue nada do SUS. A gente tá na luta pra conseguir essas coisas via judiciais, né, mas a gente não conseguiu."
Atuação em área de combate
Tiago atuava como operador de drones no 25º Batalhão de Assalto Aerotransportado da Ucrânia. A unidade é especializada em operações de combate que atua diretamente nas áreas de confronto. O batalhão está na região de Donbas, no leste do país, uma das principais frentes da guerra.
Desde o início da guerra, em 2022, a Ucrânia passou a recrutar estrangeiros para atuar nas Forças Armadas.
Segundo Marili, parte dos brasileiros é atraída pela promessa de uma remuneração maior. Ela afirma que, no caso de Tiago, havia uma diferença entre o valor que os combatentes imaginavam receber e o pagamento efetivamente feito.
"Quando eles vão com a informação de 50 mil pra lá, não é 50 mil euros que as pessoas acreditam que é a Europa. Eles chegam lá, eles descobrem que é 50 mil grivnas, que aqui equivale a uns 5 mil e meio, 6 mil reais. Então eles chegam lá e não tem aquele salário."
Família quer poder se despedir
Sem a confirmação oficial da morte e sem acesso ao corpo, a família vive a incerteza sobre o que aconteceu com Tiago.
Para Marili, o principal agora é conseguir uma resposta das autoridades e garantir que o marido tenha uma despedida digna.
"Pra que a gente possa ter das autoridades uma resposta, que não tratem ele assim como um ninguém, porque não é uma primeira vez que ele foi pra lá, ele lutou todo aquele tempo, voltou pra lá lutar pra ter aquilo ali, então que eles tenham pelo menos um pouco de respeito e dê uma dignidade a ele agora porque ele tem uma filha."
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