'Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento': a entrevista da médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes ao g1

  • 29/03/2026
(Foto: Reprodução)
A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes Divulgação Ela fala da morte sem baixar o tom, mas também sem endurecer a voz. Médica paliativista, escritora do livro "A morte é um dia que vale a pena viver" e embaixadora da Voa Health, Ana Claudia Quintana Arantes não vê o tema como um desvio da vida, mas como uma das suas dimensões mais negligenciadas. Ao longo de mais de duas décadas acompanhando pacientes com doenças graves, ela se acostumou a ver o que acontece quando esse assunto é evitado: decisões tomadas às pressas, sofrimento prolongado e despedidas atravessadas por dúvidas. Não por falta de tecnologia ou de recursos médicos, mas por ausência de conversa. No Brasil, essa lacuna também é estrutural. Embora o país tenha avançado na formalização da política pública, o número de equipes habilitadas em cuidados paliativos ainda é reduzido frente à demanda de uma população que envelhece rapidamente. A distância entre a norma e o acesso concreto ao cuidado segue evidente. A realidade, ela diz, é que a maioria das pessoas não morre de forma súbita. Morre doente —e, nesse percurso, precisa de cuidado. É nesse ponto que entram os cuidados paliativos, ainda frequentemente associados, de forma equivocada, à desistência ou ao fim iminente. Nesta entrevista, a médica fala sobre o que define uma “boa morte”, critica a forma como a medicina lida com a finitude e defende que reconhecer o limite da vida pode ser, paradoxalmente, uma forma de vivê-la melhor. Veja os vídeos que estão em alta no g1 g1: A senhora costuma dizer que a morte é um dia que vale a pena viver. O que está sendo vivido nesse momento que ainda não entendemos? Ana Cláudia Quintana Arantes: As pessoas não entendem que, para viver uma experiência que valha a pena, é preciso cuidado. A maioria de nós vai morrer doente e, quando isso acontece, a gente precisa saber receber cuidado e ter quem saiba oferecer. A morte vale a pena quando há esse encontro. O que mais te incomoda na forma como a sociedade evita falar sobre a morte? Quando você não fala sobre a morte, perde a chance de entender melhor o que fazer com o seu tempo. Quando alguém sabe que tem pouco tempo de vida, aprende a priorizar. E a prioridade não pode ser “estar vivo daqui a seis meses”, porque isso não é garantido. Quem tem essa consciência costuma viver melhor. Não porque a situação é fácil, mas porque passa a escolher com mais clareza o que viver. Mas e quando o sofrimento emocional fala mais alto? O sofrimento existe. É triste, dá raiva, dá medo. Mas, se você não consegue colocar isso a favor da sua história, vai perder tempo. A vida não espera você entender. Viver boas memórias é importante para quem está morrendo e para quem vai ficar. E passar dois dos três meses chorando não constrói essa memória. A medicina foi treinada para salvar vidas. Como ela lida com o limite de não conseguir evitar a morte?A gente foi treinado com uma ilusão de poder, de que salva vidas. Mas a gente só adia a morte. Não é exatamente arrogância, é uma ingenuidade. É como uma criança que acha que tem superpoder. A morte não obedece ao médico. O problema é que muitos profissionais ainda encaram a morte como fracasso. E não é. A história da vida termina. O que importa é como se cuida desse final. Por que os cuidados paliativos ainda chegam tão pouco e tão tarde aos pacientes? Porque essa informação não circula principalmente entre os médicos. Ela chega por outras vias —matérias, novelas, experiências pessoais. As pessoas reconhecem quando uma morte foi bem cuidada e quando não foi. Mesmo sem saber o nome disso. Mas mudar essa cultura leva tempo. E, quando o cuidado paliativo entra só no final, não há tempo para construir vínculo nem organizar decisões. O ensino médico já mudou nesse ponto? Desde 2022, o ensino de cuidados paliativos é obrigatório nas faculdades de medicina. Mas ainda é muito insuficiente. Você tem, às vezes, dois períodos para ensinar algo que exige experiência, sensibilidade e prática. Isso não forma um profissional preparado, no máximo, sensibiliza. A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes Divulgação O que define uma 'boa morte'? Não é uma morte bonita nem fácil. É uma experiência de cuidado que respeita o que a pessoa considera digno. Isso pode significar estar em casa, estar no hospital, ter ou não determinados procedimentos. O importante é que isso tenha sido conversado antes. Todo mundo vai viver e todo mundo vai morrer. A diferença está em quanto você consegue reconhecer o que quer e o que não quer. Por que é tão difícil falar disso dentro das famílias? Porque as pessoas dizem “não vamos pensar nisso”, “vai dar tudo certo”. Mas, no fim, tudo dá certo e você morre. Quando a família evita essa conversa, ela está escolhendo sofrer mais depois. Porque vai ter que decidir sem saber o que a pessoa queria. Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento. A senhora já viu momentos que traduzem essa transformação no fim da vida? Sim. Um paciente com tumor cerebral me disse que parecia que tinham tirado do cérebro dele a parte que o fazia infeliz. Ele passou a demonstrar afeto, a se relacionar melhor com a família, a não querer controlar tudo. E dizia que estava adorando ser quem se tornou. Isso é muito marcante. Há algo de libertador em reconhecer que vamos morrer? Sem dúvida. Você entende que não precisa resolver tudo. Os problemas continuam, com ou sem você. Isso ajuda a dar menos peso para coisas que não merecem tanto sofrimento. Quem deve decidir até onde vai um tratamento: médico, paciente ou família? Os três, e juntos. O médico traz o conhecimento técnico, a família participa do cuidado e o paciente define o que é limite para ele. Mas é o paciente quem vive as consequências, então a decisão precisa ser centrada nele. O Brasil está preparado para discutir diretivas antecipadas de vontade? Não. E não está preparado nem para o que já está acontecendo. É um país que envelhece rápido e não tem estrutura suficiente para cuidar disso. Falar de diretivas é se preparar para algo melhor, e ainda estamos lidando mal com o básico. O que mais te incomoda na forma como o sistema de saúde lida com o fim da vida? A gente discute muito o excesso de intervenções, mas esquece que a maior parte da população vive o abandono. Muitos morrem sem diagnóstico, sem tratamento, sem cuidado. Isso é a realidade predominante. A desigualdade social interfere na forma como as pessoas morrem? Totalmente. Dependendo de onde você está, não há acesso a nada. E a experiência de morte passa a ser de abandono. Isso pode acontecer com qualquer um, dependendo das circunstâncias. O que, afinal, são cuidados paliativos —e por que ainda são confundidos com desistência? Cuidado paliativo é proteção contra o sofrimento causado por uma doença grave e pelo tratamento dela. Ele não antecipa nem prolonga a morte. Ele cuida da dor, do emocional, da família, do contexto social e espiritual. Ainda há confusão porque muitos médicos acreditam que podem evitar a morte a qualquer custo, e isso não é verdade. O que muda quando esse cuidado começa cedo? A pessoa vive melhor. Sem controle de sintomas, ela não recebe visitas, não sai, não aproveita. Quando o cuidado começa antes, ela ganha tempo com qualidade. Depois de tantos anos acompanhando o fim da vida, o que mudou na senhora? Eu entendi que não existe sentido em buscar um grande propósito. O sentido da vida é viver. E viver com coerência —entre o que você diz e o que você faz. Isso, para mim, foi um aprendizado importante.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/03/29/falar-sobre-a-morte-nao-poupa-sofrimento-organiza-o-sofrimento-a-entrevista-da-medica-paliativista-e-escritora-ana-claudia-quintana-arantes-ao-g1.ghtml


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